O estudo de Korkmaz e colaboradores observa jogadores amadores de futebol antes e depois de um teste anaeróbio de Wingate. A força do artigo está na ideia de série temporal: a termografia não registra apenas um antes e depois, mas acompanha como regiões musculares específicas mudam ao longo de minutos.
O esforço curto também deixa uma assinatura térmica
O Wingate é um teste de esforço máximo de 30 segundos. Ele não copia todos os gestos do futebol, mas representa bem uma parte decisiva do jogo: sprints, acelerações, ações explosivas e demandas anaeróbias de curta duração.
No estudo, a pergunta foi direta: depois desse esforço, quais músculos dos membros inferiores mostram alteração mensurável de temperatura cutânea? E quais características individuais podem modificar essa resposta?
O desenho do estudo seguiu recomendações de imagem termográfica em esporte e exercício. O laboratório foi mantido em 22 ± 2 °C, com umidade entre 40 e 60%, sem correntes de ar relevantes. Os atletas permaneceram 20 minutos em aclimatação, e as imagens foram obtidas em fundo escuro.
- Linha de base imagem antes do teste, após aclimatação
- Wingate 30 segundos de esforço máximo em cicloergômetro
- 15 segundos primeira janela de resposta imediata
- 4 minutos fase inicial de redistribuição térmica
- 8 minutos seguimento intermediário da recuperação
- 12 minutos janela em que o quadríceps direito se destacou
Onde medir importa tanto quanto quando medir
As regiões de interesse foram desenhadas manualmente em quadríceps, isquiotibiais e gastrocnêmios, sempre nos dois lados. A média térmica de cada ROI entrou na análise estatística.
Essa escolha preserva um princípio essencial: a termografia esportiva precisa sair da impressão visual e entrar na mensuração regional. Sem ROI, a paleta de cor pode sugerir mais do que realmente mede.
O achado principal não apareceu imediatamente
Houve efeito significativo do tempo, com aumento de temperatura cutânea aos 12 minutos em relação à linha de base.
Não apresentaram efeito temporal significativo nas análises principais.
Jogadores com menor percentual de gordura exibiram respostas térmicas maiores em quadríceps e isquiotibiais.
Não mostraram efeito consistente sobre as respostas térmicas no modelo analisado.
Números que orientam a leitura
Por que a série temporal muda a interpretação
Uma aquisição imediatamente após o esforço pode perder parte da resposta. O estudo mostra que a janela de 12 minutos foi decisiva para o quadríceps direito, o que sugere que a dinâmica térmica muscular pode ter atraso em relação ao gesto esportivo.
Na prática, isso desloca a pergunta. Não basta saber se a região está quente. É preciso saber quando ela aquece, quanto tempo permanece alterada e se esse comportamento se repete no mesmo atleta.
O que isso ensina para o uso da termografia no esporte
A termografia pode ajudar a acompanhar a resposta funcional de grupos musculares após cargas intensas.
Uma única imagem não substitui histórico, sintomas, carga recente, desempenho e exame físico.
O percentual de gordura pode modular a temperatura cutânea e precisa entrar na interpretação.
Suor, ambiente, aclimatação e posicionamento podem invalidar ou enfraquecer a imagem.
O cuidado metodológico evita conclusões apressadas
O estudo foi realizado com jogadores amadores homens, em uma amostra final de 26 participantes. A resposta térmica foi aguda, restrita até 12 minutos após o Wingate, e não incluiu marcadores fisiológicos invasivos, como lactato ou citocinas inflamatórias.
Ainda assim, o artigo é valioso porque mostra uma direção metodológica: termografia em esporte deve ser repetida no tempo, analisada por ROI e interpretada com moderadores biológicos. O calor da pele é dado funcional, mas não é diagnóstico isolado de fadiga, microtrauma ou risco de lesão.
No esporte, o termograma mais útil talvez não seja o mais bonito. É o que permite comparar o mesmo atleta, a mesma região e a mesma carga em momentos definidos.
Referência principal
Korkmaz S, Thapa RK, Relph N, Çalık İ, Uysal HŞ. Thermal imaging responses of lower-limb muscles following anaerobic testing in male soccer players: A time-series approach. PLoS One. 2025;20(10):e0331102. doi:10.1371/journal.pone.0331102.
Comentário editorial publicado pela Revista Termodiagnose. O texto resume o estudo com finalidade educativa e preserva a distinção entre monitoramento funcional, hipótese fisiológica e decisão clínica.